Não é por acaso que a Premier League é considerada a liga mais emocionante do mundo e esta época tivemos mais uma prova deste fato quando o Leicester City se tornou campeão inglês pela primeira vez na sua história. Quais foram os fatores essenciais para este feito inédito do clube comandado pelo italiano Claudio Ranieri?

Em apenas três anos, o Leicester City viveu uma verdadeira aventura. Em 2013/14 foi campeão do Championship e subiu à Premier League, depois de muitos anos afastado da ribalta. Na época de 2014/15 lutou contra a despromoção, ficando num modesto 14º posto. Este ano, contra tudo e todos, conseguiu arrecadar o título de campeão inglês. No entanto, este título não apareceu por acaso e existem alguns fatores que contribuíram para o sucesso deste modesto clube. Para começar, os lucros provenientes dos direitos televisivos, os quais em Inglaterra são exorbitantes ao ponto de clubes pequenos lucrarem mais do que os “três grandes” em Portugal, por exemplo. Depois, o investimento injetado pela empresa King Power e pelo seu CEO Vichai Srivaddhanaprabha, com o objetivo de colocar o Leicester na elite do futebol inglês. Para esta época, o atual campeão dispôs “apenas” de 60 milhões de Euros como orçamento para montar o seu plantel, em contraste com os 570M€ do anterior campeão Chelsea.

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Os heróis do Leicester City

Com o orçamento de que dispunha, Claudio Ranieri conseguiu montar um onze sem estrelas sonantes mas muito competitivo. Comecemos por analisar o investimento feito na equipa titular. Na baliza, temos o filho de uma lenda bem conhecida dos portugueses, Kasper Schmeichel que custou cerca de 1,2M€ há duas épocas. A defesa é composta por jogadores experientes que já atuaram em algumas das melhores equipas da Europa: Danny Simpson (2,3), Wes Morgan (1), Robert Huth (4) e Christian Fuchs foram os jogadores mais utilizados na defesa por Ranieri em toda época e foram essenciais para manter uma base sólida e coesa. Aliás, o capitão Wes Morgan revelou-se uma arma mortífera nos lances de bola parada, marcando alguns golos decisivos para a sua equipa. No meio-campo, N’Golo Kanté foi uma das maiores revelações da época. O possante médio francês veio da segunda liga francesa por cerca de 8,4M€ e hoje é um dos médios mais cobiçados do mundo. Outro dos maiores craques da equipa é Riyad Mahrez. O argelino custou apenas 1 milhão de Euros e foi absolutamente decisivo na conquista do título, com 17 golos e 12 assistências em toda a época. Drinkwater (850 mil Euros) e Marc Albrighton (custo zero) ajudam a compor o meio-campo sólido do Leicester. Na frente de ataque, o “endiabrado” Jamie Vardy marcou 24 golos e é o segundo melhor marcador da Premier League atrás de Harry Kane, avançado do Tottenham. Vardy custou cerca de 1M€ e já fazia parte do plantel, afirmando-se apenas esta temporada como titular indiscutível. Por fim, temos o jogador mais caro do Leicester esta temporada, Shinji Okazaki que custou cerca de 10,3M€ ao Estugarda.

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Claudio Ranieri, o homem por detrás do sucesso

É importante ficarmos a conhecer o homem que conseguiu o feito extraordinário de tornar o Leicester City campeão inglês. Claudio Ranieri, o experiente treinador italiano de 64 anos, foi o grande obreiro desta conquista inédita e vai ficar para sempre ligado à história deste modesto clube inglês. No entanto e ao contrário do que se faz querer na grande parte da imprensa desportiva, Ranieri não é um treinador falhado por não ter conquistado títulos de relevo nas equipas de topo por onde passou, pois encontrou sempre conjunturas muito específicas e conseguiu dar a volta por cima. Tendo começado a sua carreira como técnico no modesto Cagliari, foi no Nápoles e na Fiorentina que começou a dar nas vistas como um verdadeiro conhecedor do jogo e da tática. Com os viola ganhou uma Taça de Itália e uma Supertaça, e no Valência, onde esteve desde 1997 a 1999, conseguiu intrometer-se no claro domínio de Real Madrid e Barcelona e ganhar uma Taça do Rei. Treinou ainda o Atlético de Madrid sem feitos notáveis e foi no Chelsea, em 2004, que conseguiu chegar pela primeira vez na sua carreira a uma meia-final da Liga dos Campeões.

Até 2007, teve passagens menos conseguidas pelo Valência e Parma, e foi na Juventus que conseguiu estabilizar novamente a sua carreira. O clube de Turim tinha acabado de ser promovido da segunda liga italiana, depois de ter sido condenado à despromoção no escândalo do Calciocaos. Como seria de esperar de Ranieri, conseguiu “arrumar” a casa e colocar a Juventus como vice-campeã italiana por dois anos consecutivos. Ainda hoje Claudio Ranieri é lembrado em Turim como o homem que fez com que a Juventus voltasse a ser a equipa dominante em Itália. Em 2009 ingressou na Roma e conseguiu ganhar uma Taça de Itália e uma Supertaça. Passou ainda pelo Inter de Milão e pelo Mónaco, onde em 2014 voltaria a colocar o clube do principado na elite francesa depois de ter sido relegado na época anterior. A nível de seleções, treinou a Grécia onde ficou conhecido pela infame derrota contra as Ilhas Faroé por 1-0, sendo imediatamente demitido. Atualmente em 2016, Ranieri ganhou o seu primeiro título de campeão com o Leicester City e promete não ficar por aqui. O italiano já prometeu aos adeptos que “vai ser difícil repetir este feito, mas os adeptos devem sonhar.”

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O que falhou nos grandes da Premier League?

Os grandes da Premier League, o denominado “Big Five”, tiveram uma época atípica e em parte contribuíram para que o Leicester conseguisse este feito inédito. O anterior campeão em título, o Chelsea de José Mourinho, foi pródigo em momentos insólitos. Os melhores jogadores da época passada como Diego Costa, Hazard e Fabrègas entraram em conflito com o técnico português e simplesmente apagaram-se. A equipa ressentiu-se e o Chelsea somou derrotas incompreensíveis no início da época que acabaram por custar a revalidação do título. Entretanto José Mourinho seria demitido e Gus Hiddink foi o homem escolhido para dar alguma estabilidade ao anterior campeão. O Chelsea viria a estar diretamente ligado ao título do Leicester, empatando com o Tottenham em casa e impedindo que os spurs se aproximassem dos foxes no topo da liga. Na próxima época o Chelsea vai estar a cargo de Antonio Conte, que vai tomar conta dos blues assim que terminar a participação no Euro 2016 ao serviço da seleção de Itália.

O Arsenal é um dos clubes que continua a desiludir época após época. Nesta edição de 15/16 da Premier League, os gunners estiveram várias jornadas no topo mas claudicaram devido às longas lesões dos seus craques como Ozil, Alexis Sanchez, Cazorla e Jack Wilshere. Arsène Wenger é hoje um dos técnicos mais contestados da Premier League e os adeptos já não toleram os falhanços sucessivos do clube de Londres. Está na eminência de terminar no 3º posto e desta forma assegurar o acesso direto à fase de grupos da Liga dos Campeões, depois de quatro temporadas consecutivas a terminar em 4º lugar. Ainda assim, Arsène Wenger conseguiu melhorar o registo para as temporadas anteriores.

Rivais de Manchester ainda longe de repetirem sucessos recentes

Os rivais da cidade de Manchester, United e City, também ficaram bastante aquém das expetativas esta época. Já com Pep Guardiola confirmado como o próximo treinador dos citizens a partir da próxima época, Manuel Pellegrini prepara-se para deixar o “seu” City no 4ª posto com acesso ao playoff da Liga dos Campeões e conseguiu o feito de levar o clube à sua primeira meia-final da maior competição de clubes do mundo, tendo apenas perdido para o Real Madrid por 1-0 no conjunto das duas mãos. Guardiola terá agora a missão de devolver ao Manchester City o título de campeão da Premier League, conquistados por Pellegrini recentemente em 2012 e 2014, após mais de 50 anos de jejum.

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A mesma tarefa poderá ter José Mourinho, que segundo a imprensa desportiva inglesa, tem um acordo de cavalheiros para assinar pelo Manchester United a partir da próxima época. O treinador português ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto, mas a confirmar-se o rumor, a próxima edição da Premier League terá Guardiola e Mourinho novamente em confronto, desta vez em clubes da mesma cidade. Esta época, a prestação do Manchester United comandado por Louis van Gaal ficou marcada por exibições extremamente irregulares e sem um onze base definido. Resultado disso, e ao que tudo indica, os red devils vão ficar-se pelo 5º posto que dá acesso direto à fase de grupos da Liga Europa.

Por fim, menções honrosas para o Liverpool de Jurgen Klopp e para o Tottenham de Mauricio Pochettino. O treinador alemão chegou a Liverpool com a época a decorrer e com o plantel completamente “partido”, arrumou a casa da melhor forma possível e como recompensa irá disputar a final da Liga Europa contra o Sevilha, detentor do troféu e bicampeão europeu, no dia 18 de Maio em Basileia. Caso vença a competição, garante o acesso direto à fase de grupos da próxima edição da Liga dos Campeões. Quanto à Premier League, fica-se pelo 8º lugar. Espera-se mais a nível interno de um dos clubes mais consagrados de Inglaterra.

O treinador argentino do Tottenham, Mauricio Pochettino, deve ficar com um sabor extremamente amargo após perder o título para o Leicester. Os spurs, vice-campeões ingleses, praticaram um futebol muito atrativo e ofensivo graças ao talento de jovens como Delle Ali, Harry Kane, Eric Dier, Eriksen, Lamela, entre outros. No entanto, pecaram num aspeto no qual o Leicester não sucumbiu: a consistência. Durante toda a época, Tottenham oscilou entre bons resultados e exibições fantásticas e resultados menos conseguidos em jogos que não conseguiu aguentar a pressão dos adversários.

Prémios e distinções da Premier League 2015/16

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Riyad Mahrez, estrela do Leicester, foi premiado com o título de Melhor Jogador do Ano da Premier League, sucedendo a Eden Hazard (Chelsea). Delle Ali, do Tottenham, foi eleito como o Melhor Jogador Jovem. Quanto ao Melhor Onze do Ano, é constituído da seguinte forma: Jack Butland (Stoke City); Christian Fuchs (Leicester), Wes Morgan (Leicester), Alderweireld (Tottenham), Bellerín (Arsenal); Dimitri Payet (West Ham), N’Golo Kanté (Leicester), Riyad Mahrez (Leicester), Mesut Ozil (Arsenal); Jamie Vardy (Leicester), Harry Kane (Tottenham).

Artigo publicado em: Begin.Media - 18/5/2016
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